O mercado nacional sofre já a algum tempo com a falta de boas opções quando se fala em comprar uma prancha de bodyboard. Já não bastasse a completa falta de lojas físicas especializadas (diferente de países como EUA e Austrália), o mercado foi dominado por marcas nacionais que pouco ou nada acrescentaram nos últimos 10 ou 15 anos em termos de inovação e investimento. São utilizados os mesmos materiais, os mesmos modelos, as mesmas cores, enfiados goela abaixo dos consumidores ditos “comuns” e também da maioria dos atletas profissionais que não tem nenhum tipo de apoio ou patrocínio e tem que pagar as pranchas do próprio bolso. Enquanto isso no exterior houve uma enxurrada de novas tecnologias e desenvolvimento de novos blocos e produtos, mudando completamente o mercado.
Isso acabou nos últimos anos criando no Brasil uma grande procura por pranchas importadas, e junto com a facilidade de compra através da internet, o que vemos hoje é uma avalanche de marcas estrangeiras nas ondas brasileiras. Difícil ir a algum pico tradicional do esporte hoje em dia e não ver alguém com equipamento importado. Com a estabilização do dólar americano, essas pranchas acabaram se tornando um belo negócio também financeiramente, saindo por quase o mesmo preço dos “pré-históricos” modelos nacionais. Se for colocar na balança os quesitos qualidade de construção, variedade de materiais e etc, fica claro o porque de toda essa procura. Hoje então já se consegue comprar um modelo importado inclusive de alguns sites com estoque localizado no Brasil, como é o caso da loja B2BR, que nem vende pranchas nacionais. Isso mostra como o produto importado vem engolindo a produção nacional nos últimos anos.
Quatro diferentes opções de blocos de um mesmo modelo (NMD Ben Player) , disponíveis no mercado australiano. Da esq. para a dir.: Parabolic, Pro Ride, Kinetic PP e NRG / imagens:bodyboardking.com
Mas tudo isso não é por mero acaso. Enquanto lá fora temos até 4 ou 5 tipos de bloco para cada modelo de prancha, com opções para diferentes temperaturas de água, ondas e estilos, aqui o mercado está limitado a blocos muito duros, colocando sempre a durabilidade da prancha em primeiro lugar, algo que em condições extremas de onda pode até ser perigoso. Parece até que a essência única e singular do esporte, que é a flexibilidade da prancha em comparação as pranchas de surf, foi colocada de lado. A justificativa seria a dificuldade de importação de matéria prima de qualidade, o que encareceria ainda mais as já caras pranchas nacionais. Mesmo as pranchas importadas ainda vendidas aqui, são oferecidas em apenas uma opção de bloco, logicamente o mais duro.
Aqui chegou-se ao cúmulo da maior marca do país anunciar em seu próprio site pranchas de uma outra marca portuguesa, atestando e assinando embaixo inconscientemente (ou seria conscientemente?) a pouca qualidade do produto nacional. Imaginem uma marca de carros vender em seu site carros importados de uma outra marca concorrente. No mínimo uma estratégia sem pé nem cabeça, pra não dizer outra coisa.
Exemplo de publicidade na Austrália: a prancha que o campeão Ben Player usa é a mesma que você encontra na loja / imagem: bodyboardking.com
E assim tem caminhado as marcas e o mercado de produção nacional, sem materiais de qualidade, com preços no mesmo patamar de produtos importados ou até mais caros, e sem uma identidade visual ou valor de marca que faça com que os consumidores se sintam atraídos por seus produtos. Lá fora é nítida a preocupação das marcas de ponta com o “link” entre os atletas e seus modelos de prancha, os chamados “pro models”. Todos sabem o poder que as cores tem e o quanto isso pode fazer diferença em uma venda, e as suas diferentes combinações são realmente levadas a sério e seguidas à risca. Todos acabam sabendo a qual atleta pertence aquele modelo, simplesmente pela combinação de cores da prancha. Isso se chama “identidade”, e pra uma marca é o bem mais valioso junto de sua qualidade. Enquanto isso no Brasil vemos profissionais cada hora com uma prancha com combinação de cores diferente, e não existem “coleções” de ano para ano. Os mais jovens querem usar a prancha que o campeão usa, isso é mais do que óbvio. Mas qual a cor da prancha e que tipo de rabeta que o super campeão mundial Guilherme Tâmega usa por exemplo? Não sei e ninguém sabe, cada hora é uma diferente. E é aí que está o grande erro. Na verdade o Brasil é uma mina de ouro em tamanho de mercado e número de praticantes, mas essa mina é simplesmente jogada no ralo pela pobre estratégia das poucas e sonolentas marcas nacionais.
Talvez em 2014 algo mude de figura, já que a Genesis está fabricando a sua linha “high end” na mesma fábrica que produz algumas das melhores pranchas do mundo, estratégia essa que vem sendo usada no mundo todo para padronizar qualidade e baratear custos de produção.
Bom, nos próximos posts vou entrar em mais detalhes sobre o mercado mundial, descrever o comportamento de alguns tipos de materiais na água, e também já tenho em mente alguns posts sobre a história do esporte e competição, inclusive tentando decifrar o que acontece com o atual circuito mundial da IBA. Tem muita coisa ainda e isso aqui foi só o começo.
Boas ondas e te vejo na água!
Paulo Fleury

